As novelas brasileiras, historicamente consolidadas como uma das principais formas narrativas e de entretenimento da sociedade brasileira, atravessam um momento de ruptura. Três Graças, última novela das 21h exibida na TV Globo, marca um novo paradigma ao apresentar núcleos LGBTQIAPN+ vivendo dilemas rotineiros e de convivência, distantes da centralidade do trauma da “saída do armário”.
Na trama, o público acompanhou as dinâmicas de uma família já consolidada com Kasper (Miguel Falabella) e João Rubens (Samuel de Assis), a força de quebra de padrões do casal lésbico Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky), apelidadas pelas redes sociais de “Loquinha”, e o relacionamento entre Viviane (Gabriela Loran), uma mulher trans, e Leonardo (Pedro Novaes), um homem cis.
Em Três Graças, além do sucesso de repercussão, audiência e crítica, a novela apresentou cenas de carinho explícito e sem pudor entre os personagens, sem qualquer interferência vinda por parte da opinião pública. Mas muitas das novelas anteriores não tiveram o mesmo êxito, devido a fatores internos e externos.
Para quem a novela escreve? Entre a representatividade e a lógica comercial
Para o espectador assíduo e graduando em escrita criativa Denis Pessoa, de 39 anos e homem gay, a obra tem um ineditismo muito claro em relação às produções do passado:
Três Graças foi a PRIMEIRA novela a criar um casal gay PARA o público gay. Antes, eles eram sempre feitos para os casais héteros”, declara Denis.
Essa transição orgânica, no entanto, não ignora a engrenagem comercial. A pesquisadora Samantha Joyce, autora e professora universitária nos EUA, avalia que “a novela é um artefato cultural”. Para ela, a evolução nas telas é inseparável da luta real da comunidade:
A relação entre cultura, direitos humanos e representatividade está, inevitavelmente, “associada ao mercado”, pontua a pesquisadora, ressaltando que, no final das contas, “o que ganha é o pragmatismo da TV unido àqueles autores que têm uma busca por direitos, igualdade social e humanidade”.
Quando falamos da novela como artefato, temos que saber que sempre há uma negociação entre os escritores — que querem dizer algo a respeito desse tema — e o que uma empresa privada como a TV Globo acha que a “sociedade” vai querer ver dentro de suas casas. No modelo comercial de TV aberta, o que as emissoras entendem é que os espectadores são consumidores. Eu sempre digo para os meus alunos: a TV não está aqui para te entreter, ela está aqui para vender você para os anunciantes. A moeda de troca na televisão somos nós. Então, a relação entre cultura, direitos humanos e representatividade está, inevitavelmente, associada ao mercado”.
Samantha Joyce.
O silêncio que grita: o constrangimento na sala de estar
Assistir a novelas no Brasil é um ritual doméstico coletivo, mas, para muitos espectadores LGBTQIAPN+, esse momento na sala de casa era marcado por um silêncio carregado e pelo medo do julgamento.
O espectador Danilo Legal, de 37 anos e homem gay, relembra como a tensão familiar ditava o clima durante as cenas emblemáticas na TV:
Tinha um clima diferente na sala: silêncio repentino, olhares rápidos entre meus pais e meus irmãos, e eu fazia algumas piadas para quebrar o desconforto”, declara Danilo.
Enquanto para Denis Pessoa, a sensação de constrangimento era ainda mais profunda e acompanhava a sua trajetória desde cedo. Ele descreve a difícil relação com a homofobia silenciada dentro do ambiente familiar:
Isso é canônico para quase todo gay, exceto aqueles que tiveram a sorte de não nascer em famílias homofóbicas. Eu sou um gay assumido, mas a minha sexualidade e minha vida amorosa são nulas na existência do meu pai e da minha mãe. Rola esse constrangimento até hoje. Eu finjo que não estou prestando atenção quando aparece um casal LGBT na TV. É muito triste e complicado. Antigamente, a minha mãe fingia que não existia. Hoje, ela percebeu o quanto é constrangedor ser homofóbica em voz alta, então ela fica quieta. Mas aquele silêncio esquisito paira no ar. É muito injusto milhões de gays passarem por isso dentro de casa. E parte desse constrangimento vem da abordagem da TV no passado: ou era deboche puro, ou focavam apenas no romance e na sexualidade, ignorando a pluralidade e a identidade. Respeitar um gay não é caridade; se não respeitar, é homofobia.
A era da caricatura
A naturalidade de hoje contrasta com um passado em que a comunidade LGBTQIAPN+ foi historicamente relegada à margem das narrativas. Nas décadas anteriores, os personagens serviam estritamente como vilões ou alívio cômico.
O crítico de TV e pesquisador Nilson Xavier relembra que a caricatura extremada, a exemplo do personagem Crô (Marcelo Serrado) em Fina Estampa (2011), foi uma marca frequente na emissora. Ao analisar esse recurso hoje, o especialista é categórico: “Eu acho datado, ultrapassado, antagônico e chato até”.
Consumir essas caricaturas deixou marcas profundas em quem não tinha outras referências. Denis Pessoa relata como essas representações afetaram sua construção de identidade antes de se assumir:
Eu achava todos ridículos: o Seu Peru, o Pit Bicha, aqueles personagens do Zorra Total… O problema é que, vendo com um olhar adulto hoje, percebo que essas representações contribuíram para uma visão muito negativa que eu criei da própria comunidade. Eu cresci consumindo produtos para o público heterossexual”.
Denis Pessoa.

Por outro lado, a popularidade do alívio cômico operava de forma curiosa em alguns dos lares mais tradicionais. O espectador Danilo Legal, de 39 anos e homem gay, defende que o Crô teve o mérito de “mostrar que um personagem gay podia dominar a novela em carisma”. Segundo Danilo, mesmo carregando traços caricatos, a força de Crô quebrou barreiras em casa: “Fez a minha mãe criar carinho por ele”.
A Próxima Vítima (1995) e Torre de Babel (1998): “Só pode ser esse maldito preconceito”


Quando as tramas de “saída do armário” começaram a ganhar contornos reais, as reações da audiência foram viscerais. Em A Próxima Vítima (1995), o autor Silvio de Abreu introduziu o romance secreto entre os jovens universitários Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes). Sem recorrer ao deboche, os personagens foram abraçados pelo público.
O crítico Nilson Xavier explica o motivo dessa aceitação: “O autor primeiro apresentou os personagens sem evidenciar que eram namorados. O público afeiçoou-se a eles como ‘bons filhos’, então a aceitação foi mais fácil”.
No entanto, apenas três anos depois, o mesmo autor enfrentaria a fúria conservadora. Em Torre de Babel (1998), o casal de lésbicas Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni) foi apresentado desde o início da trama como uma parceria madura e assumida. O choque moral foi tão agressivo que resultou em um rearranjo drástico: as personagens precisaram ser mortas na explosão de um shopping center para acalmar o público.
Por Amor (1997): abordagem discreta
Na virada para o final dos anos 1990, o contato com a diversidade ainda era muito complexo. Em Por Amor (1997), a história de Rafael (Odilon Wagner) — um homem maduro e casado com uma mulher que precisou assumir sua homossexualidade — marcou a memória de muitos telespectadores.
Para Denis Pessoa, esse foi um ponto de virada: “A primeira certeza do que era um personagem gay veio com o Rafael em Por Amor. Eu devia ter uns ou 10 anos”.
Apesar da importância do tema na obra de Manoel Carlos, a emissora mantinha a temática em um regime de invisibilidade velada, fugindo da afirmação. Denis expõe a limitação dessa narrativa: “Da metade da novela para frente, os autores inventavam um plot para ele, mas não se falava a palavra ‘gay’. A palavra ‘cocaína’ não era dita, ‘gay’ também não. As coisas eram muito sutis e subjetivas para um casal”.
Anos 2000: pequenos passos
Se apenas 5 anos antes, as lésbicas de Torre de Babel sofreram tamanha rejeição a ponto de precisarem ser explodidas pelo autor para acalmar o público conservador, em Mulheres Apaixonadas (2003), de Manoel Carlos, ocorreram pequenos avanços. O romance juvenil de Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) foi bem aceito pela sociedade, havendo até declarações explícitas de amor entre pessoas do mesmo sexo.
Foi nessa época que Danilo vivenciou um despertar. Ao acompanhar a trama de Clara e Rafaela, a identificação foi imediata:
Foi a primeira vez que eu vi alguém dizer que amava alguém do mesmo sexo, e isso me fez refletir sobre a minha sexualidade”.
Danilo Legal.
No último capítulo da novela, um beijo precisou ser suavizado para o público conservador, culminando apenas em um “selinho” casto no final da obra.

Na novela Senhora do Destino (2004), o autor Aguinaldo Silva trouxe ao ar a história de Eleonora (Mylla Christie), uma jovem que enfrentava a resistência da família — especialmente do pai homofóbico — ao viver seu romance com Jenifer (Bárbara Borges). A trama foi um marco importante por levar para o horário nobre o desejo de Eleonora em constituir uma família, incluindo a luta pela adoção de uma criança, o que gerou debates intensos sobre direitos civis na época.
A pesquisadora Samantha Joyce, que estudou profundamente a obra em seu primeiro livro, destaca a importância histórica do casal. Para ela, é preciso reconhecer essas personagens como pioneiras na construção do caminho que permitiu chegar aos avanços atuais. Joyce ressalta a importância dessas figuras ao afirmar: “Eu sempre ficava meio triste quando as pessoas botavam o foco todo nas ‘Loquinhas’, porque, afinal de contas, a Jenifer e a Eleonora foram as primeiras a aparecer na cama, naquela cena do dia seguinte, de calcinha e sutiã debaixo do lençol branquinho”. Ao rememorar essa trajetória, a pesquisadora conclui que elas foram, de certa forma, as “avós” das representações que vemos hoje na teledramaturgia.
Em América (2005), o recuo foi ainda maior: o aguardado beijo entre Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) chegou a ser gravado sete vezes, mas a alta cúpula da emissora vetou a cena horas antes do último capítulo ir ao ar, refletindo os limites comerciais da época.

Amor e Revolução (2011): o pioneirismo do primeiro beijo lésbico no SBT
Enquanto a TV Globo acumulava episódios de autocensura e beijos vetados na década anterior, a década de 2010 consolidou novos marcos de visibilidade, e o pioneirismo veio de outra rede, o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão).
Em 12 de maio de 2011, a telenovela Amor e Revolução exibiu uma cena em que as personagens Marcela, interpretada pela atriz Luciana Vendramini, e Marina, vivida por Giselle Tigre, protagonizaram um beijo entre duas mulheres. O ato é considerado por muitos veículos e acadêmicos como o primeiro beijo lésbico exibido em uma novela brasileira na televisão aberta.
Amor à Vida (2013), Em Família (2014) e Babilônia (2015): o beijo da redenção e a reação do conservadorismo
O rompimento definitivo da barreira do beijo gay entre homens no horário nobre da TV Globo ocorreu em 31 de janeiro de 2014, no último capítulo de Amor à Vida. A trajetória do vilão Félix (Mateus Solano) até a sua redenção ao lado de Niko (Thiago Fragoso) cativou o país. Para Nilson Xavier, o carisma do personagem foi fundamental para esse marco histórico: “Acho que o público estava mais aberto em 2013 do que em 2005. O carisma do personagem, bem como sua trajetória, ajudaram, claro”.
Logo em seguida, a novela Em Família (2014) consolidou uma trajetória de afeto com o casal “Clarina” (Clara e Marina, interpretadas por Giovanna Antonelli e Tainá Müller, respectivamente). Nilson Xavier diferencia esse sucesso da recepção de outras obras pela forma como a narrativa foi conduzida: “Quanto a Clarina, houve toda uma construção de narrativa”.
Contudo, a teledramaturgia brasileira ainda enfrentava um termômetro moral volátil. Logo no ano seguinte, em Babilônia (2015), o beijo carinhoso logo no primeiro capítulo entre Teresa e Estela (Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg) resultou em um boicote conservador imediato. Nilson Xavier analisa que, diferentemente da construção gradual de Em Família, “o público foi pego de surpresa, inadvertidamente, e isso assustou”.
O documentário Orgulho Além da Tela (2021) registra a tristeza de Fernanda Montenegro com o episódio, revelando que a repulsa do público revelou não apenas homofobia, mas um etarismo profundo: a sociedade brasileira não suportou ver a sexualidade pulsante em duas mulheres idosas.


A Força do Querer (2017): o mergulho na dor psicológica da transição
Em 2017, a teledramaturgia presenciou pela primeira vez o arco narrativo de um personagem transgênero. A trajetória de Ivana/Ivan, personagem interpretado por Carol Duarte em A Força do Querer (2017), escrita por Glória Perez, trouxe ao centro da narrativa o processo de autodescoberta e a transição de gênero.
Para Nilson Xavier, essa fase representou um movimento importante na forma como os autores passaram a construir seus personagens trans. Ao analisar essa evolução na TV, Xavier observa que, embora o didatismo tenha sido uma marca presente, o foco migrou para a vivência dos personagens: “Acho que nunca nada é superado. É sempre uma questão de narrativa, de como é construída. Avanços acontecem, logicamente”.
Vai na Fé (2023): a força da pressão popular contra os cortes
Mesmo na década de 2020, os avanços ainda esbarram na autocensura das emissoras, que por vezes tentam podar o afeto com base em termômetros morais de sua própria diretoria. Em Vai na Fé (2023), o público presenciou sucessivos cortes nas cenas de beijo entre os casais Clara (Regiane Alves)/Helena (Priscila Sztejnman) e Yuri (Jean Paulo Campos)/Vini (Guthierry Sotero).
A TV Globo declarou oficialmente que os cortes de beijos homoafetivos em Vai na Fé resultaram de “estratégias de programação ou artísticas”, negando censura e tratando as alterações como edições rotineiras.


O que diferenciou esse período de 2005, contudo, foi a onipresença da internet. Sob pressão massiva do público nas redes sociais, a emissora foi obrigada a recuar, exibindo cenas de beijos entre os personagens nos capítulos seguintes.
Vale Tudo: o abismo entre o “não dito” de 1988 e o remake de 2025
A trajetória do casal Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska) em Vale Tudo (1988) é o retrato da censura de transição. Na versão original, o relacionamento era construído nas entrelinhas, sem que as personagens pudessem ser chamadas de lésbicas. Além disso, o autor Gilberto Braga utilizou a trama para discutir o acesso à herança entre casais homoafetivos nos anos 80, mostrando a vulnerabilidade de Laís frente à família de Cecília após a morte da parceira em um acidente de carro, que serviu como o “tropo trágico” para remover o casal da tela.
Já no remake de 2025, escrito por Manuela Dias, o cenário é de absoluta ruptura com o passado. Em uma reparação histórica, a autora manteve Cecília (Maeve Jinkings) viva e o casal unido até o final da trama, compartilhando, inclusive, o processo de adoção de uma menina. O que em 1988 era tabu e alvo de tragédia, em 2025 é tratado com a naturalidade de uma família que constrói seu futuro com direitos e afetos celebrados em vida.


O horizonte da pluralidade: o futuro da ficção
Ao olhar para o futuro da teledramaturgia, o desejo dos espectadores é por um cenário em que a representatividade não seja um evento isolado, mas uma constante na estrutura das histórias. Para Denis Pessoa, o próximo passo essencial é abandonar o didatismo excessivo que, muitas vezes, ainda parece tratar o público LGBT como objeto de estudo ou como um nicho a ser educado.
Sobre o que espera das próximas produções, Denis é incisivo em sua demanda:
Um sonho distante (e não sei se possível?): novelas protagonizadas por personagens LGBTs. O futuro da novela precisa ser: mais diversidade. Chega de casais LGBT isolados entre 30 personagens heterossexuais. É preciso tornar esses personagens mais comuns, aumentar a quantidade e a diversidade de histórias”. Para o espectador, o sucesso de tramas como Três Graças é apenas o início; a meta é a ocupação plena da tela, onde a existência de corpos diversos não precise mais de justificativa ou autorização para ser celebrada.”






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